ESCRITOR NÃO ESCOLHE

21 de Novembro de 2006 @ 02:34 por Walcyr

Sempre me perguntam por que escrevi isso ou aquilo. Hoje mesmo, em uma entrevista, veio a questão: “Por que você optou por escrever A SENHORA DAS VELAS? Minha primeira reação é de susto. Seria impensável “optar” por esta ou aquela história. Escrever um conto, um livro, uma peça, uma novela, é um ato de entrega profunda, em que estão envolvidas minhas sombras, minhas luzes e, certamente, forte carga de emoção.

É como se o personagem, ou a história, fossem vivos e me escolhessem. Como se o personagem gritasse comigo: “Ei, você não vai escrever minha história?” Acredito que mesmo textos científicos exijam essa paixão. Já li, é claro, livros em que o autor não parece ter o mínimo envolvimento. Parece interessado em provar uma tese. Os personagens se tornam mecânicos, as páginas não vibram!

Há pouco tempo passei a entender melhor o que há por trás dessa pergunta. Vivemos em uma sociedade técnica, que busca exatidões. As pessoas procuram explicar processos que muitas vezes exigem outro tipo de abordagem. Então perguntam por que resolvi escrever uma história, qual o meu objetivo etc. Não resolvi nem tenho objetivo, só o desejo de expressar uma história que grita dentro de mim. Como fiz em A SENHORA DAS VELAS.

Ser escritor não é exercer uma ciência exata. (Embora mesmo a matemática se torne um exercício abstrato quando em profundidade.) Ser escritor não é ser um técnico. É deixar falar uma perspectiva de mundo. É expressar o que há no coração.

WALCYR CARRRASCO